Pagamento em análise: a foraclusão do econômico que retorna como delírio teórico

Por Pedro Vannucchi Trindade

Na psicanálise, especialmente de tradição lacaniana, poucas máximas são tão repetidas e pouco questionadas quanto a de que uma análise não pode ser gratuita: o analisante precisa pagar e, muitas vezes, precisa “pagar bem” para que o tratamento produza seus efeitos. As justificativas para essa suposta necessidade são variadas, indo da associação entre libido e dinheiro à famosa alusão lacaniana a “uma libra de carne”. Contudo, o que acontece quando submetemos esse consenso a uma análise crítica tanto das construções teóricas que o sustentam quanto, fundamentalmente, da experiência clínica?

Este ensaio propõe uma inversão dessa máxima: o analisante não precisa pagar, mas sim, o analista precisa receber. A diferença parece sutil, mas é cheia de consequências. A tese aqui é que a necessidade material do analista – fator exógeno – é foracluída do discurso e, como consequência, as justificativas “delirantes” retornam para dar conta dessa foraclusão – de forma endógena. O econômico excluído pela porta da frente, volta como delírio pela janela. O delírio teórico opera de forma sofisticada: a necessidade material do analista é convertida em necessidade psíquica do analisante. O que é externo (a economia política que atravessa a vida) volta como interno (a justificativa clínica para o paciente). A partir de experiências clínicas minhas e de colegas, além de mais de meia década coordenando duas redes clínicas que trabalham com o chamado “valor social”, pretendo colocar em xeque algumas construções que se revelam mais convenientes do que verdadeiras, reabrindo um importante debate sobre o lugar do dinheiro, da classe e da economia política dentro da psicanálise.

O discurso hegemônico na comunidade psicanalítica é enfático, passando de afirmações simples como “uma análise deve ser paga”, “deve-se pagar o preço”, até interpretações mais excêntricas como “o dinheiro representa a libido”, “o dinheiro toca na pulsão”. Não faltam justificativas para o alto preço de uma análise. O contexto é tal que a discussão sobre o pagamento dos super-ricos tornou-se um tema relevante, enquanto o debate sobre a gratuidade é frequentemente descartado como uma impossibilidade clínica ou um equívoco teórico.

Assim como outros consensos mostraram-se frágeis e relativos, entendo que este seja mais um desses casos. Duas experiências recentes são paradigmáticas. A primeira diz respeito à forma do pagamento: até poucos anos atrás, era comum ouvir que o pagamento em análise só poderia ser feito em dinheiro vivo, pois o ato físico da entrega do dinheiro seria de fundamental importância. Essa hipótese caiu em total desuso a partir de transformações no mundo digital e econômico (extra-clínica) que colocaram o dinheiro físico em segundo plano – ao final, mostrou-se indiferente que uma análise fosse paga em dinheiro vivo ou não. A segunda experiência diz respeito à análise online: aquilo que era tratado por muitos como um equívoco clínico e teórico (podemos dizer que havia um tabu em torno desse tema: pouco se falava a respeito e abordá-lo era pisar em ovos), passou a ser absolutamente normalizado e generalizado a partir do momento que esses mesmos críticos passaram a depender dessa possibilidade para manter seu sustento financeiro e a viabilidade de seus consultórios durante a pandemia de Covid-19. Quantos trabalhos acadêmicos foram produzidos como justificativa da exigência da presença, da presença do corpo, na análise? E quantos ainda fazem sentido à luz do que a experiência clínica pós-pandêmica revelou?

Tais cenários sugerem que alguns consensos dogmáticos são menos verdades teórico-clínicas e mais elaborações convenientes. Esses paradigmas operam um tipo de transformação que os psicanalistas já conhecem: transformar o contingente em necessário. Aquilo que é da ordem do acaso ou da condição contemporânea se torna um pressuposto estrutural. Exemplo: “só é possível pagar a análise em dinheiro hoje”, se torna “só é possível pagar a análise em dinheiro como condição estrutural do tratamento”. O mesmo vale para o caso da presença física no consultório. Proponho que a relação com o pagamento em análise funciona de forma parecida no interior do debate contemporâneo: o problema foi colocado no lugar errado. A questão fundamental não é se o analisante precisa pagar, mas sim que existe uma impossibilidade material: se o analisante não pagar, o analista não recebe. Se, hoje, essa distinção parece não fazer diferença na maior parte dos contextos privados, ela se torna crucial se imaginarmos outros cenários. Uma política pública que, por exemplo, viabilizasse a psicanálise via SUS, criaria a condição: o analista receberia e o analisante não pagaria. Elizabeth Danto (2019) nos lembra que a proposta de Freud, em 1918, era essa: a criação de clínicas públicas que atendessem gratuitamente, com acesso para toda população, mas que, obviamente, remuneraria seus profissionais. A psicanálise estaria armada com as ferramentas adequadas para abordar essa realidade sem determiná-la, a priori, como impossível?

A proposta freudiana sobre as clínicas públicas revela que,  para Freud, a análise gratuita é clinicamente viável, ou seja, possível enquanto dispositivo. Embora, como argumentamos aqui, seja materialmente impraticável. Sua inviabilidade está determinada por forças que estão para além do dispositivo analítico: a organização econômica da sociedade – o analista precisa ser pago.

A teoria psicanalítica não é construída a partir de conceitos lógicos e intuitivos, pelo contrário: a história da psicanálise é a história da descoberta de funcionamentos bastante contraintuitivos. Na psicanálise, uma ideia lógica, que estabelece todo diálogo e sentido com o edifício teórico vigente, pode estar absolutamente equivocada. Está aí uma distinção fundamental entre psicanálise e filosofia: a soberania da clínica. Trata-se da tradução em teoria daquilo que se observa na experiência clínica. Assim, a teoria da psicanálise não é homóloga ao inconsciente, é análoga – a consequência é que a soma da teoria com a teoria não produz nova teoria, para isso seria necessário incluir a clínica no cálculo. É precisamente neste ponto que o consenso sobre o pagamento em análise se desencontra do método: a clínica é deixada de lado.

Como muitas vezes as justificativas para consensos dogmáticos fazem referência aos clássicos, vamos retornar aos textos de Freud e Lacan, não para tomá-los como portadores da verdade definitiva, mas para analisar como suas formulações foram seletivamente interpretadas. 

Freud, em seus “Artigos sobre a Técnica” (1911-1915), aborda o tema com sua característica honestidade.

“O analista não contesta que o dinheiro deve ser visto em primeiro lugar como meio de autopreservação e obtenção de poder, mas afirma que poderosos fatores sexuais estão envolvidos na apreciação do dinheiro. (…) Ele pode lembrar que as questões de dinheiro são tratadas pelos homens civilizados de modo semelhante ao das coisas sexuais, com a mesma duplicidade, falso pudor e hipocrisia.” (FREUD, 2010, p.175)

Na sequência, nos fornece algumas sugestões de ordem prática, focando na necessidade material do analista.

“Penso que é mais digno, e eticamente mais irrepreensível, declarar suas reais exigências e necessidades, em vez de, como ainda hoje é costume entre os médicos, fazer papel de filantropo desinteressado, situação que certamente não lhe cabe, e afligir-se ou invectivar a falta de respeito e o afã de exploração do paciente.” (..) “Em prol de sua reivindicação  de pagamento, o analista alegará também que, embora trabalhe muito, jamais ganhará tanto como outros especialistas da medicina.” (FREUD, 2010, p. 176)

Freud prossegue:

“Pelas mesmas razões ele deve se recusar a tratar alguém sem honorários, e não fazer exceção para os colegas ou seus parentes. […] mas tenha-se em vista que um tratamento gratuito significa bem mais para um psicanalista que para qualquer outro, ou seja, a subtração de parte considerável do tempo que dispõe para ganhar a vida (uma oitiva, uma sétima parte, talvez) durante muitos meses. Um tratamento gratuito simultâneo lhe roubaria já um quarto ou um terço de sua capacidade de ganho, o que seria equivalente ao efeito de um grave acidente traumático.” (FREUD, 2010, p. 176/177)

Freud, que atendia cada paciente de cinco a seis vezes por semana, ou seja, atendia poucos pacientes, mas todos os dias, enfatiza a questão financeira do psicanalista nesse contexto. Na sequência, Freud comenta algumas das dificuldades encontradas no tratamento gratuito que experimentou durante cerca de uma década.

“Creio poder arriscar um juízo a esse respeito, pois durante uns dez anos dediquei uma hora por dia, ocasionalmente duas, a tratamentos gratuitos, porque queria trabalhar com a menor resistência possível, a fim de me orientar no estudo da neurose. Mas não encontrei nisso as vantagens que procurava. O tratamento gratuito aumenta bastante algumas resistências do neurótico; nas mulheres jovens, por exemplo, a tentação que está contida na relação de transferência; nos homens jovens, a revolta contra o dever da gratidão, que provém do complexo paterno e se inclui entre os mais sérios obstáculos à ajuda médica. A ausência do efeito regulador proporcionado pelo pagamento ao médico se faz sentir bastante penosamente; toda relação se afasta do mundo real; retira-se ao paciente um bom motivo para se empenhar pelo fim do tratamento”. (FREUD, 2010, p. 177)

A experiência de Freud, neste ponto, deveria valer como a de um psicanalista entre outros. Para Freud, em seu contexto específico de um europeu (ou mais especificamente ainda, de um cidadão do Império Austro-hungáro) do final do século XIX e começo do século XX, recebendo pacientes desse mesmo contexto, que muito provavelmente tinham uma relação com o serviço público ou gratuito muito diferente da relação do brasileiro do século XXI com esse tipo de serviço, a análise gratuita não rendeu as vantagens esperadas e trouxe complicações adicionais, mas não consta nenhum juízo sobre algo da ordem da impossibilidade.

Lacan, por sua vez, volta a insistir na necessidade do analista de ser pago ao evocar o mito de Atreu e Tiestes:

“Não quero insistir, mas talvez vocês me façam delicadamente notar que nós também, que estamos o tempo todo servindo de portadores de todas as cartas roubadas do paciente, nós também cobramos mais ou menos caro. Reflitam bem no seguinte – se nós não cobrássemos, entraríamos  no drama de Atreu e de Tiestes que é o de todos os sujeitos que nos vêm confiar a verdade deles. Eles nos contam umas histórias danadas e por isto não estamos nem um pouco na ordem do sagrado nem na do sacrifício. Todo mundo sabe que o dinheiro não serve simplesmente para comprar objetos, mas que os preços, que em nossa sociedade são calculados o mais exatamente possível, têm como função amortecer algo infinitamente mais perigoso do que pagar em dinheiro, que consiste em dever algo a alguém.” (LACAN, 2010, p. 276)

Nesta passagem, Lacan aborda a questão do sentimento de dívida. Sem dúvida este pode vir a ser um tema relevante no interior de uma análise, embora seja fundamental distinguir a dívida simbólica da dívida financeira. O sujeito que se sente em dívida, não se sente assim por ter, de fato, uma dívida real. Não é o lastro na realidade que a produz. A ideia de que o tratamento gratuito ou de “valor social” produziria um sentimento de dívida incontornável, inviabilizador do tratamento, não se mostrou verdadeiro na experiência clínica. O sujeito que se sente em dívida, se sentirá assim com ou sem pagamento. A questão, portanto, não é de impossibilidade, mas de manejo. Tratar o dinheiro, também, dentro da psicanálise permanece importante e pode vir a ser questão relevante em muitos tratamentos. Não se trata de uma oposição binária: ou um ou outro. O sucesso relevante de análises conduzidas em contexto de gratuidade ou com valores simbólicos atesta que o tema não está esgotado; pelo contrário, este artigo busca colaborar para desbloquear um debate prematuramente encerrado.

A famosa máxima de Lacan (1998), de que “o analista também paga” – com sua palavra, sua pessoa e seu ser –, reforça a leitura de que a necessidade do pagamento em análise está centrada no analista. Contrariando a tese do excepcionalismo da psicanálise, como uma “metateoria” e um “metatrabalho”, proponho que a tese de Lacan pode ser generalizada: todo trabalho cobra um preço, seja no corpo ou na psique, e o salário funciona como compensação financeira por esse preço. O honorário, portanto, aparece como a contrapartida material exigida para que o analista possa sustentar sua função, reafirmando a tese de que o analista precisa ser pago. E, bem, que o analista precise ser pago, essa condição também é exógena à psicanálise.

Uma leitura atenta revela que a ênfase de ambos, Freud e Lacan, recai sobre as necessidades do analista embora também levem em consideração as complicações geradas no tratamento; entretanto, aquilo que foi tratado nos clássicos como uma dificuldade a ser levada em consideração, passou para a doutrina como condição determinante.

Aqui, sugiro a adoção de um método de leitura crítica: devemos desconfiar de produções teóricas que são excessivamente convenientes para quem as formula. Me parece que parte do que está em jogo na negação instantânea da análise gratuita é uma tentativa tortuosa de “cobrar sem culpa”, como se fosse necessário justificar para si mesmo que a cobrança é necessária — e é, mas pra quem? —, um drama que talvez seja próprio dos profissionais liberais (outro fator exógeno comumente ignorado). Em outros casos, pode servir de justificativa para “elitismo sem culpa”, afinal, se a análise gratuita (ou até a psicanálise barata pode ser colocada nesse lugar) é impossível, trata-se de uma imposição teórica e nada pode ser feito a respeito. Culpa essa que também estaria fora de lugar – não há condições para estabelecer uma psicanálise gratuita hoje, senão através do heroísmo de alguns poucos; e mesmo essa é uma questão delicada: não é o elitismo da psicanálise que permite a alguns trabalhar sem remuneração?

O tratamento dado à questão do pagamento em análise não é exceção, é comum que a psicanálise tenha dificuldade para trabalhar com outros campos do saber. Uma estratégia clássica, sintomática dessa dificuldade, é a tentativa de excluir a alteridade desse outro campo para incluí-lo dentro da própria psicanálise. É o que muitas vezes acontece com a política, que é fagocitada e tratada como um campo interno, menor, da psicanálise: a partir de seus próprios conceitos, agora pode operar em outro campo que deixou de ser outro. “A estratégia geral é substituir a economia política da psicanálise pela psicanálise da economia política” (Dantas & Tupinambá, 2015). A problemática do pagamento não é o único sintoma da exclusão da economia: a economia política, a teoria do valor, a luta de classes e, de forma mais banal, o simples fato de que o analista é um trabalhador que precisa pagar suas contas, são sistematicamente excluídos da práxis psicanalítica. Estes, embora sejam fatores externos, incidem diretamente sobre o campo. Foraclusão, aqui, é a operação de rejeição ativa do campo econômico que, embora exógeno, insiste e atravessa a psicanálise.

Aquilo que é foracluído do simbólico retorna no real, de forma, neste caso, delirante. O delírio teórico é precisamente o retorno desse econômico excluído: ele preenche a falta e cumpre uma função organizadora. Contudo, o faz de forma irreconhecível e invertida.

A construção delirante opera da seguinte maneira:

  1. A realidade material (foracluída): “Eu, analista, preciso receber dinheiro para viver. Portanto, não posso me dar ao luxo de atender gratuitamente.”
  2. O delírio teórico (o retorno invertido): “A análise gratuita é impossível porque o analisante precisa pagar para que o tratamento funcione. Não se trata de uma escolha, mas de uma condição estrutural da análise.”

Nesse processo, a responsabilidade pela transação financeira é deslocada do analista para o analisante, e uma necessidade material é transformada em uma verdade clínica universal.

Ao percorrer as justificativas dogmáticas sobre o pagamento, revisitando os textos clássicos e, principalmente, escutando a soberania da experiência clínica, chegamos a um ponto de inversão: a necessidade do pagamento não é uma condição intrínseca ao dispositivo analítico, mas uma consequência da realidade material do analista. A transformação dessa necessidade em um condição estrutural é o produto da foraclusão da economia do campo psicanalítico que retorna, de forma delirante, como uma verdade clínica. Assim como a suposta impossibilidade da análise online ruiu diante da necessidade material imposta pela pandemia, o consenso sobre o pagamento também deve ser repensado. Não se trata de uma especificidade de nossa prática; trata-se de olhar exatamente para o que ela tem de mais comum e banal: a psicanálise está, como tudo, atravessada pela economia e pela luta de classes.

A insistência em um consenso clínico a-histórico e universal sobre a dinâmica do pagamento ignora contextos chave. Não se deve assumir que a relação da sociedade brasileira do século XXI com os serviços públicos e gratuitos seja análoga à da sociedade do Império Austro-hungáro do final do século XIX ou da sociedade parisiense de meados do século XX. Evidentemente, esta crítica não sugere que o dinheiro e o pagamento sejam insignificantes enquanto material de análise, pelo contrário, o pagamento, o não pagamento, o valor, a negociação, o atraso etc. são todos temas que podem se tornar relevantes em uma análise. O que se questiona não é a utilidade clínica do pagamento, mas sua suposta condição de possibilidade.  Este ensaio busca, portanto, colaborar para abrir um debate que foi interditado e colocar em xeque alguns consensos dogmáticos. Questionar a condição do pagamento é, em última instância, um convite para que a psicanálise se implique radicalmente em seu tempo e encare sua inescapável inserção no mundo.

Referências

DANTAS, Daniel; TUPINAMBÁ, Gabriel (2015) O analista cobra, o paciente paga — e a economia política dá o troco. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. 0, p. 8, 2015. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2015/09/29/o-paciente-paga-o-analista-cobra-e-a-economia-politica-da-o-troco/>.

DANTO, Elizabeth Ann. As Clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social. Trad. Margarida Goldstajn. São Paulo: Editora Perspectiva, 2019.

FREUD, Sigmund. “O caso Schreber” e outros textos. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. Escritos; tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 2: O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.

Comentários

Uma resposta a “Pagamento em análise: a foraclusão do econômico que retorna como delírio teórico”

  1. Avatar de Fabio Sanchez

    Parabéns pelo texto,Pedro. Deslocar o analista da condição cândida de recebedor não implicado é necessário para pensar uma política do cuidado menos hipócrita. Não conhecia a revista Lacuna, bem interessante o texto mencionado.

    Curtir

Deixe um comentário

Check also

View Archive [ -> ]