Por Luiz Durante
Fiquei pensando outro dia nesse tipo de sofrimento que não aparece. Não faz barulho, não estala como plástico de invólucro sendo aberto, não pede atenção, não dá manchete. A gente guarda tão bem que chega uma hora em que nem lembra mais onde colocou. Só que ele não some. Fica ali, à espera de ser encontrado por acaso.
E o curioso é que, enquanto isso, a gente melhora a fachada. Fala melhor, se veste melhor, reage melhor. Vai ficando elegante, como roupa bonita de festa. Uma elegância meio treinada, diga-se. Por dentro, ainda com algo que a gente prefere não abrir.
Numa mesa de café, vi dois amigos tentando se acertar. Bonito de ver, se fosse de fora. Cuidado nas palavras, pausa no tom, aquele esforço sincero de não ferir. Em certo momento, um deles disse, com convicção quase ensaiada, “tá tudo bem”. E, quando alguém diz isso desse jeito, quase sempre fica decidido que está. E ficou um silêncio depois. Um silêncio que não era paz. Era só intervalo.
A gente gosta de acreditar que entende o que vive. Que organiza a própria história, que fecha ciclos, que aprende. Mas, no fundo, é tudo meio improviso. Um pedaço de lembrança aqui, uma versão mais confortável ali e pronto, nasce uma verdade que serve, pelo menos por enquanto, como se fosse preciso acreditar nela para não olhar direto para o que desorganiza.
As palavras ajudam, claro. Mas também enganam. São boas de aparência, mas mudam de sentido conforme o uso. E, dependendo de quem diz, passam a valer mais. “Perdão”, por exemplo. Palavra bonita. Redonda. Parece solução. Em certas épocas do ano, então, ganha até calendário.
Nem sempre é.
Tem perdão que liberta. Tem perdão que é acordo. Um pacto silencioso, desses que ninguém assina, mas que, uma vez dito, passa a organizar o que pode e o que não pode mais ser lembrado. “A gente não fala mais nisso” pode significar muita coisa. Inclusive que ainda tem muito ali.
Vi uma mensagem dessas, longa, bem pensada, revisada. Cheia de cuidado. “Quero que você fique bem”, “acho que agora a gente pode seguir”. Tudo certo, tudo educado. E, quando vem assim, fica difícil discordar. Como quem fecha a porta sem olhar para trás, mas já tendo escolhido qual história vai permanecer do lado de fora.
A verdade é que a gente vai se moldando. Engole o mundo aos poucos. Repete ideias, incorpora gestos, aprende a caber. Vai aparando arestas, ajustando o discurso, encontrando um jeito de funcionar. Não caber cansa mais.
Então a gente aceita. Nem sempre convencido, mas adaptado. E, quando aperta demais, dá um jeito de aliviar. Às vezes jogando para o outro. O outro vira destino fácil para o que incomoda. Culpa, frustração, expectativa. O pacote vai inteiro.
Tem também os almoços de família. Nesses dias, com mesa posta e clima de reconciliação no ar, alguém levanta um assunto antigo, outro corta com um “hoje não”. Os talheres pousam no prato um segundo mais alto. Alguém ri, alguém concorda. E, por um instante, parece que ficou resolvido. Fica combinado que ficou. Sabor perdão, o importante é que está na mesa.
Como certas coisas que a gente sabe que estão ali, mas prefere deixar fechadas.
Enquanto isso, do lado de fora, tudo vira medida. Tudo entra na lógica do uso, do rendimento, do ganho. Sentimento incluso. Até o perdão, veja só, começa a parecer estratégia. Um jeito de seguir mais leve. Ou pelo menos mais apresentável.
Talvez seja isso que a gente ensaia nesses dias. Não exatamente perdoar, mas parecer em paz com a própria versão dos fatos.
E a gente segue.
Trabalha, responde, aparece, ri na hora certa. Cumpre o combinado. Dá conta. Quem olha de fora, não vê nada demais. E, de fato, não há nada de errado. Só não está tudo certo.
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