Por Pedro Vannucchi Trindade
Recentemente, um texto informal circulou pela comunidade psicanalítica enfatizando que Freud era etnicamente judeu e, consequentemente, não branco. A afirmação é correta, mas foi recebida com estranheza. No infame debate promovido pelo Instituto Brasil-Israel (IBI) em 2023, intitulado “Por que Roger Waters incomoda?”, Benjamin Seroussi faz um apontamento interessante que explica tal estranheza: só no Brasil e, em certa medida, nas Américas como um todo, o judeu se tornou branco¹.
Isso se deve a uma operação sociológica típica das Américas. Diferentemente da Europa, onde a etnia² é definida pela origem (a ancestralidade ou o “sangue” definem a etnia, independentemente da aparência), o Brasil opera majoritariamente pela leitura de fenótipo (a aparência define a etnia). Diferenças do mesmo tipo se notam nas interpretações sobre nacionalidade, na Europa (e na Ásia) vale o jus sanguinis (é nacional de um país quem tem sangue e ancestralidade) enquanto nas Américas, por uma necessidade da colonização, vale o jus soli (é nacional quem nasce no território, qualquer que seja sua origem).
Por ter a pele clara, o judeu asquenaze foi assimilado à branquitude brasileira e passou a gozar dessa posição privilegiada³. A consequência desse contexto local é a produção de uma leitura anacrônica, descolada da realidade do antissemitismo⁴ europeu e suas implicações na vida de Freud e na origem da psicanálise, apagando a profunda tensão racial na qual ele estava inserido.
Parte I – A questão étnica e a psicanálise
Para desfazer esse engano é preciso olhar para o contexto histórico e político do Império Austro-Húngaro⁵. Freud nasce na Morávia, numa região da atual República Tcheca, em 1856, em uma família de judeus ortodoxos cujos idiomas domésticos eram o alemão e o iídiche – a mãe de Freud, Amalia, falava principalmente iídiche (Mezan, 2020), língua dos judeus asquenazes. Durante a primeira infância de Freud, o comércio de lãs de seu pai, Jacob, vai à falência e sua família tenta se mudar para Leipzig (Alemanha), em busca de melhores oportunidades, mas é barrada por leis locais que impediam a moradia e o trabalho de judeus estrangeiros na cidade (Schröter; Tögel, 2007). Com isso, eles acabam se estabelecendo em Viena, em 1860, quando Freud tinha 4 anos de idade. Documentos descobertos nas últimas décadas revelam que a chegada da família foi marcada por grande pobreza⁶. A família se estabeleceu em um subúrbio judeu (Leopoldstadt, o bairro mais pobre de Viena) e, ao longo dos anos, ocupou diversos apartamentos, alguns insalubres (a grande penúria financeira vai acompanhar Freud por algumas décadas). O pai de Freud nunca conseguiu se recuperar nos negócios e se sustentou financeiramente com a ajuda dos filhos do primeiro casamento (Roudinesco, 2016) — a mãe de Freud era a terceira esposa de Jacob.
Freud viveu a transição de um regime de apartheid ⁷ para um regime de segregação velada. Até 1848 as leis mais pesadas de segregação ainda estavam valendo, como, por exemplo, as “Leis dos Familiares”, que impunham controle demográfico: apenas o filho mais velho de uma família judia tinha permissão legal para se casar e constituir família. Os demais eram condenados ao celibato forçado. Somava-se a isso a restrição da liberdade de ir e vir, além de restrições para o trabalho e o comércio etc.
O cenário institucional muda quando essa legislação cai, no contexto da Primavera dos Povos, e a Constituição de 1867 entra em vigor – Freud tinha, então, 11 anos de idade –, estabelecendo pela primeira vez direitos plenos de cidadania⁸ aos judeus. Contudo, a implementação desses direitos nunca foi completa: instituições privadas não eram obrigadas a aceitar judeus e em instituições estatais a lei era seguida apenas parcialmente.
Nesse contexto da chamada Emancipação, Freud e seus contemporâneos se veem diante de certo otimismo com a promessa de integração real à sociedade. Integração que, anteriormente, seus antepassados tinham sofrido de forma coercitiva: a adoção forçada da língua alemã, a troca de seu sistema de sobrenomes judeus por sobrenomes alemães no final do século XVIII (como o próprio sobrenome “Freud”), entre outras medidas.
Porém, como sabemos, a transformação institucional e a transformação cultural da sociedade são coisas diferentes, e o antissemitismo não cessou. Freud e sua geração permaneceram determinados pela condição judaica⁹ e foram “obrigados a se desjudaizarem para poderem ser intelectuais ou cientistas. Para existirem como judeus, foram obrigados a adotar as culturas latinas, grega e alemã” (Roudinesco, 2016, pos. 328). Aqui podemos ler algo da posição judaica frente à cultura europeia como a “máscara branca”¹⁰ formulada por Frantz Fanon (2008), em um movimento dialético em que, aquilo que é inicialmente imposto como uma força externa é, depois, incorporado como um funcionamento interno. Também lembramos do conceito de mimetismo colonial¹¹ descrito pelo indiano Homi Bhabha (1984), desenvolvido sob forte influência psicanalítica. Nele o colonizado é levado a assimilar a cultura dominante, mas ao fazê-lo, produz grande incômodo no colonizador, que vê esse Outro na posição de “um diferente quase igual”.
Freud viveu em uma Viena profundamente antissemita. Um exemplo é que o prefeito de Viena era Karl Lueger, reeleito cinco vezes (esteve na prefeitura de 1897 até sua morte em 1910), líder do Partido Social Cristão, partido que experimentou grande ascensão nos países de língua alemã e que tinha como uma de suas principais bandeiras a chamada “desjudaização” da sociedade (Mezan, 1985). Karl Lueger serviu, inclusive, de grande inspiração para outro vienense contemporâneo de Freud: Adolf Hitler. Para o contexto racista europeu do século XIX e começo do século XX, o judeu, definitivamente, não era “branco”. O judeu era visto como “Outro” estrangeiro, diferente, que precisava ser excluído para que a “unidade” germânica funcionasse.
É certo que o antissemitismo se manifestava de várias formas, seja impedindo o acesso de artistas a cargos de prestígio, seja pela protelação indefinida da nomeação de cientistas para postos de destaque (é o caso de Freud e de vários de seus colegas), seja recordando a cada momento ao judeu que ele não passava de um estrangeiro tolerado. (Mezan, 1985, p. 68)
Um funcionamento clássico que conhecemos de tantas tensões raciais entre diferentes povos ao longo dos séculos. Cerca de setenta anos depois da Emancipação, o Holocausto chegaria, em parte, como efeito rebote dessa conquista judaica¹².
No contexto histórico e político que levantamos até aqui, vemos a comunidade judaica na Europa, até o pós-Guerra, mais na posição de colonizados internos do que de colonizadores que produziriam e gozariam de tais conquistas europeias. Ler Freud como “branco e burguês” é um anacronismo histórico, além de um equívoco factual ¹³. Essas dinâmicas coloniais não são, em grande medida, as mesmas impostas aos povos colonizados nas Américas e na África?
Um dado de grande importância que costuma passar despercebido, se não intencionalmente apagado, é que Freud atendeu quase exclusivamente pacientes judeus (ainda que a elite econômica judaica) em seu consultório em Viena. Isso, mais do que um detalhe histórico, nos leva a uma reinterpretação da obra freudiana. Devemos lembrar e enfatizar, portanto, que a clínica freudiana foi a clínica de uma minoria étnica perseguida. A própria fundação da psicanálise é indissociável dessa marginalidade imposta pela questão racial.
É possível levantar a hipótese de que a psicanálise, com toda a sua carga subversiva, só seria viável a partir dessa condição à margem, segregada, e na qual o interlocutor privilegiado ocupa também essa posição (com isso se abre um campo de estudos sobre o que é a psicanálise no Brasil, com sua condição colonial e de periferia do capitalismo, por exemplo). Adiante no texto voltaremos a abordar as motivações por trás do apagamento desse tipo de dado histórico dentro do movimento psicanalítico.
Parte II – Judaicidade
A relação de Freud com o judaísmo foi ambígua e conflituosa durante toda a vida. Embora vindo de uma família de judeus observantes e tendo se casado com uma judia ortodoxa neta do grão-rabino de Hamburgo (o casamento “misto”, entre judeus e não-judeus, só viria a ser legalizado na Áustria muitas décadas depois), após seu Bar Mitzvah não há mais relatos de Freud enquanto observante: pelo contrário, ele se torna um judeu secular declarado. Entretanto, manteve vínculos fortes com a comunidade e fazia questão de afirmar sua judeidade como um “judeu sem Deus”. Em carta a Enrico Morselli, um neurologista italiano, em 1926, ele diz: “Embora eu esteja alienado da religião de meus antepassados há muito tempo, nunca perdi o sentimento de solidariedade com meu povo e percebo com satisfação que você se autodenomina aluno de um homem de minha raça — o grande Lombroso” (Freud, 1926 apud Yerushalmi, 1991, p. 12).
Mezan resgata e comenta uma carta de Freud à sua noiva, Martha Bernays, na qual este menciona as importantes descobertas neurológicas de um cientista judeu. Com isso Freud destaca a potência judaica e o que, no futuro, reconheceremos como um traço freudiano decisivo para o futuro da psicanálise: sua combatividade e capacidade de remar contra a maré.
“Tudo isso mostra a capacidade de trabalho e o entusiasmo tenaz do judeu […]. Nós poderemos conseguir algo semelhante.” Esta tenacidade, da qual se sente dotado no mais alto grau, se aplica tanto à busca do conhecimento quanto à luta contra um meio hostil; está aí o cerne da capacidade de se opor à maioria compacta que Freud associa à sua condição de judeu e à persistência com que sustentou, contra ventos e marés, as teorias essenciais da psicanálise. (Mezan, 1985, p. 74)
Como discutiremos adiante no texto, é comum em Freud o esforço de afirmação de uma espécie de superioridade judaica. Esse movimento não surpreende, trata-se de uma estratégia de contraofensiva em um contexto político que afirmava constantemente o contrário: a inferioridade do judeu. Dentro dessa tensão, volto a enfatizar a clareza com que Freud afirma a influência da judaicidade em sua vida em muitos momentos, mas destaco especialmente seu prefácio para a tradução de Totem e Tabu para o hebraico.
Nenhum leitor [da versão hebraica] deste livro achará fácil colocar-se na posição emocional de um autor que ignora a língua da Escritura Sagrada, que está completamente alienado da religião de seus pais — bem como de qualquer outra religião — e que não pode compartilhar de ideais nacionalistas, mas que, no entanto, nunca repudiou seu povo, que sente que é em sua natureza essencial um judeu e que não tem desejo de alterar essa natureza. (Freud, 1930 apud Yerushalmi, 1991, p. 13)
Ele prossegue:
Se lhe fosse feita a pergunta: ‘Já que você abandonou todas essas características comuns de seus compatriotas, o que lhe resta que seja judaico?’, ele responderia: ‘Muitíssima coisa, e provavelmente sua própria essência’. Ele não poderia agora expressar essa essência em palavras; mas algum dia, sem dúvida, ela se tornará acessível à mente científica. (Freud, 1930 apud Yerushalmi, 1991, p. 13)
A questão judaica em Freud poderia ter permanecido assim, não fosse a ascensão do nazismo, que colocou os judeus diante de nova grave ameaça existencial. E com isso, o empuxo à escrita de Moisés e o Monoteísmo como resposta.
Parte III – Moisés e a contraofensiva freudiana
É comum entre pesquisadores da questão judaica em Freud a tese de que a sua última grande obra diz respeito a um acerto de contas com sua condição de judeu. Esse texto vinha sendo escrito por Freud durante alguns anos, marcado por uma especial dificuldade, declarada pelo próprio autor no começo da obra. Também chama a atenção do leitor, familiarizado com a brilhante escrita freudiana, que esse texto foge ao padrão: é atravessado por repetições, hesitações, pedidos de desculpas e explicações — dando sinais de que este era para ele mais do que apenas um novo texto teórico. Freud começou a escrever o texto em 1934, mas só o publicou em 1938, já em Londres e não por acaso:
Então sobreveio, em março de 1938, a inesperada invasão alemã, que me obrigou a deixar meu país, mas também me livrou da preocupação de suscitar, com a publicação da obra, uma interdição da psicanálise num lugar onde ainda era tolerada. (Freud, 2018, p. 144)
O receio de que a publicação gerasse a interdição da psicanálise dá indícios de que seu conteúdo desagradaria ao status quo germânico. Não me parece que o receio de Freud diga respeito apenas aos nazistas, mas também à Viena que ele sempre conheceu – lembremos que as tropas nazistas são recebidas sem resistência na Áustria; pelo contrário, há ali aclamação popular.
Nessa obra, Freud (2018) constrói uma tese original sobre a formação da identidade judaica, fundamentada na ideia de um “progresso na intelectualidade”. Para o psicanalista, a proibição mosaica de criar imagens de Deus forçou o povo a abandonar a sensorialidade em favor da abstração intelectual. Em sua teorização, Freud associa, estranhamente, esse avanço do intelecto diretamente à passagem do matriarcado para o patriarcado. Destaco duas passagens:
Sob a influência de fatores externos que não precisamos examinar aqui, e que, em parte, também não são conhecidos suficientemente, ocorreu que a ordem social matriarcal foi substituída pela patriarcal — ao que se ligou, naturalmente, uma grande reviravolta nas condições jurídicas existentes até então. […] Mas essa mudança da mãe para o pai caracteriza, além disso, uma vitória da espiritualidade sobre a “sensorialidade”, ou seja, um avanço cultural, pois a maternidade é demonstrada pelo testemunho dos sentidos, enquanto a paternidade é uma suposição baseada numa inferência e numa premissa. Tomar partido dessa forma, pondo o processo de pensamento acima da percepção dos sentidos, mostrou-se um passo prenhe de consequências. (Freud, 2018, p. 158)
E volta a insistir nessa tese ao dizer:
Além disso, em vários avanços da intelectualidade — na vitória do patriarcado, por exemplo — não é possível apontar a autoridade que fornece a medida para o que deve ser considerado superior. […] Assim, vemo-nos ante o fenômeno de que, no desenvolvimento da humanidade, a “sensorialidade” foi gradualmente sobrepujada pela intelectualidade e os seres humanos se sentiram orgulhosos e elevados por cada um desses avanços. (Freud, 2018, p. 163)
Esses trechos provocam especial estranhamento dentro da obra freudiana, soando como um elogio ao patriarcado. Para lidar com esse impasse, o professor de história judaica Yosef Hayim Yerushalmi e a autora feminista Alessandra Affortunati Martins propõem que, no contexto de ascensão nazista, Freud deseja se defender do rebaixamento imposto aos judeus com uma contraofensiva que os coloca em posição de superioridade frente aos alemães. Martins relembra que era “difundido o paralelo entre o judaísmo e o feminino” (2020, p. 38). O judeu era visto como “acadêmico e fraco, traços tidos como afeminados da identidade judaica” (ibidem), enquanto o ideal masculino alemão era baseado na virilidade militar e na força muscular. Lembremos aqui que o próprio Carl G. Jung, em texto crítico a Freud e profundamente antissemita, publicado em 1934, diz que “os judeus têm isso em comum com as mulheres: são fisicamente fracos” (Jung, 1934, apud Yerushalmi, 1991), além de saudar a chegada de Hitler ao poder como “o formidável fenômeno do Nacional-socialismo” (ibidem).
Diante desses ataques, Freud reage e, em seu esforço defensivo, reproduz “a visão antissemita de que tal feminilidade deve ser desprezada e que o verdadeiro heroísmo – a verdadeira masculinidade – deve ser encontrado na força” (Frosh, 2005, p. 37). Ou seja, Freud tenta antes defender e valorizar a masculinidade do judeu do que problematizar a acusação.
Um elemento suplementar a essa tese pode responder à nossa questão inicial – o que as mulheres têm a ver com a reação de Freud às manifestações antissemitas ou até nazistas que envolvem essa prova de superioridade do trabalho intelectual e abstrato sobre a materialidade corpórea, tal como apresentada em seu Moisés? Se ao traço afeminado judaico enredava-se a fraqueza e a resignação, agora esses atributos, menos impetuosos e mais mentais, aparecem como uma qualidade superior. Só que nessa manobra psíquica que converte qualidades intelectuais – antes ligadas ao judeu como traços femininos – em algo profundamente masculino, Freud vê-se convocado a dissociar a inteligência da figura da mulher. Garante, com isso, seu ataque aos alemães antissemitas, só que provido de armas mais potentes e sofisticadas: a virilidade da inteligência, da abstração e das conquistas intelectuais. (MARTINS, 2020, p. 39)
Freud inverte a acusação e transforma em mérito aquilo que a acusação tratou como demérito. Alessandra Martins (2020) prossegue afirmando que o texto freudiano pode ser lido como um gesto político diante da barbarie nazista. Sem dúvida se trata de uma estratégia defensiva, mas há algo de problemático no argumento de Freud: em sua defesa do sujeito judeu, ele sacrifica a figura feminina, reproduzindo assim, a lógica da qual se defendia.
Ainda sobre a relação com Jung, é importante enfatizar que a aposta de Freud nele como pupilo passava pelo fato de este ser suíço e não-judeu¹⁴, sendo esta, na visão freudiana, uma condição de possibilidade para a sobrevivência na psicanálise no longo prazo: a dissociação entre psicanálise e judaísmo para a aceitação na Europa. Isso fica claro na carta escrita por Freud a Karl Abraham, por ocasião da publicação do Caso Pequeno Hans: “Ideais alemães ameaçados novamente! Nossos companheiros arianos são realmente indispensáveis para nós; caso contrário, a psicanálise sucumbiria ao antissemitismo.” (Freud, apud Yerushlami, 1991, p. 43).
Em 1912, Ferenczi escreve para Freud alertando sobre a preocupação de uma possível debandada de não-judeus da psicanálise e os riscos que isso envolveria (sem a “legitimidade” da presença branca, a psicanálise inevitavelmente acabaria interditada), enfatizando que a presença de Ernest Jones seria especialmente importante: “você deve manter Jones constantemente sob vigilância e cortar sua linha de retirada.” (Ferenczi apud Yerushalmi, 1991, p. 43) .
Apesar do esforço freudiano para manter os “arianos” por perto, Jung nunca pareceu preocupado em esconder seu racismo.
É certo que em 1908 – tendo Jung em mente – Freud já havia escrito a Karl Abraham: “Abrigo a suspeita de que o antissemitismo contido dos suíços, que também recai sobre mim, lança-se reforçado sobre você. Apenas penso que, como judeus, se quisermos participar de algo, temos que desenvolver um pouco de masoquismo, estar dispostos a permitir que nos façam alguma injustiça. De outra forma, é impossível conviver” (Martins, 2020, p. 39)
A observação de Freud em 1908 é resignada, embora pragmática — em todos os períodos históricos as minorias têm que lidar com esse duplo problema: 1) lutar pela transformação social; 2) lidar com o mundo tal como ele é, não como gostariam que fosse. Freud chegou a associar diretamente sua coragem epistemológica e espírito combativo ao fato de ser judeu, uma vez que estava acostumado a estar segregado e em oposição à maioria estabelecida (Mezan, 1985). Em seu “Moisés”, publicado em 1938, a posição de Freud já é mais compatível com sua tradicional postura combativa:
A preeminência que os esforços intelectuais tiveram na vida do povo judeu por cerca de 2 mil anos produziu efeito, naturalmente. Ajudou a conter a brutalidade e a inclinação à violência que costumam surgir quando o desenvolvimento da força muscular é o ideal do povo. O culto harmonioso tanto das atividades espirituais como físicas, tal como os gregos alcançaram, foi negado ao povo judeu. Ante o dilema, ao menos se decidiram pelo que tinha maior valor. (FREUD, 2018, p. 160)
Aqui os ideais alemães são rebaixados frente ao intelecto judeu, em esforço de contraofensiva. Podemos acusar esse tipo de estratégia de não ser mais do que o outro lado da moeda, por defender-se de um rebaixamento com outro, entretanto a história das lutas políticas mostra que essa estratégia é frutífera: o oprimido ganha mais ao esticar a corda ao máximo do lado contrário do que ao lutar por um suposto meio termo universal. Contudo, historicamente essa contraofensiva e os movimentos do texto freudiano foram marcados por grandes mal-entendidos. Aqui o trabalho de Yosef Hayim Yerushalmi é de grande contribuição.
Em seu ensaio clássico O Moisés de Freud: judaísmo terminável e interminável (1991), Yerushalmi critica o mito, comum entre os críticos da época, de que Freud teria escrito Moisés e o Monoteísmo num ímpeto de “auto ódio” em razão da assimilação da cultura alemã e seu consequente antissemitismo (a mesma acusação que costuma ser feita sobre as manifestações antissemitas de Karl Marx). Esse tipo de acusação teve lugar porque a tese inovadora de Freud, em momento de grande perseguição aos judeus, produz um furo no meio da identidade judaica: um Moisés egípcio. Ao contrário desses críticos, Yerushalmi (1991) primeiro apresenta a tese freudiana como a quarta ferida narcísica (ao lado dos descentramentos oferecidos por Copérnico, Darwin e o próprio Freud) — desta vez não direcionado a toda a humanidade e sim ao povo judeu —, mas defende que a apropriação desse “grande estrangeiro” (Moisés) não se propõe a rebaixar, senão a enaltecer o povo judeu.
A argumentação freudiana realiza a seguinte manobra: ao afirmar que o monoteísmo sem imagens veio do Egito, onde fracassou e não criou raízes, Freud desloca a grandeza judaica da biologia para o campo da transmissão cultural. Como sintetiza Yerushalmi, “se o monoteísmo era geneticamente egípcio, ele tem sido historicamente judaico” (Yerushalmi, 1991, p. 53). O triunfo não estaria na origem étnica do profeta, mas no fato de que as massas judaicas foram as únicas capazes de sustentar essa religião abstrata ao longo dos milênios. O próprio Freud declara que “honra o povo judeu que ele tenha conservado essa tradição e produzido homens que lhe deram voz, ainda que o estímulo para isso tenha vindo de fora, de um grande estrangeiro” (2018, p. 75).
Para aprofundar a complexidade desse “grande estrangeiro”, recorremos à leitura de Edward Said e seu Freud e os não-europeus. Se Yerushalmi enfatiza o esforço freudiano para enaltecer a transmissão cultural judaica, Said (2014) foca nas consequências políticas dessa insistência em uma origem estrangeira. Para o intelectual palestino, há uma grande radicalidade no ato de Freud: no momento histórico em que o nazismo exigia a pureza racial e o sionismo ganhava força na construção de um Estado-étnico identitário, Freud insiste em colocar um egípcio não-judeu como pai-fundador da identidade judaica. Portanto, de um lado, Freud subverte a identidade racial e, de outro, combate a acusação de inferioridade.
É nesse ponto que Yerushalmi destaca a centralidade da noção freudiana de Geistigkeit (termo alemão que pode ser traduzido como “espiritualidade” ou “intelectualidade”). A proibição mosaica de criar imagens de Deus teria forçado o povo judeu a uma imensa renúncia pulsional. Segundo Yerushalmi (1991, p. 52), essa exigência “significava subordinar a percepção sensorial a uma ideia abstrata; foi um triunfo da Geistigkeit […] sobre a sensorialidade”. Enquanto o discurso antissemita inferiorizava os judeus, o texto de Freud afirmava que eles representavam o auge do “desenvolvimento humano”. Aqui devemos novamente parar para problematizar o argumento freudiano. Embora tenhamos como foco demonstrar a posição defensiva de Freud ao longo do texto, também devemos apontar que sua contraofensiva opera com as armas do pensamento europeu: a ideia supremacista de que existiria uma hierarquia entre as civilizações, com culturas e povos superiores e inferiores; a mesma base de pensamento que permitiu tanto as colonizações quanto os racismos — do qual ele era alvo. Voltemos ao nosso argumento principal. Yerushalmi prossegue colocando em palavras o que Freud apenas sugere: “se o cristianismo representou um certo avanço psicológico, o judaísmo significou progresso cultural, intelectual e espiritual” (1991, p. 52). Aqui Freud reproduz a mesma estratégia argumentativa de defesa do judaísmo.
Para provar que essas formulações foram um ato deliberado de resistência, Yerushalmi (1991) lembra que, no Congresso Psicanalítico de Paris em 1938, com a Europa à beira da guerra com a ascensão nazista, Freud (já bastante idoso e debilitado fisicamente e que, sendo assim, não poderia comparecer ao evento) decidiu que sua filha Anna Freud iria representá-lo para ler em público apenas o capítulo de Moisés e o Monoteísmo sobre o qual nos debruçamos neste ensaio e em que Freud estabelece a contraofensiva judaica, intitulado “O Progresso na Espiritualidade”. Nesse contexto, a apresentação desse capítulo por Anna Freud é mais do que tudo um ato político.
Parte IV – Pensamento europeu e problemas contemporâneos
Quando abordamos o judeu como colonizado interno, portanto excluído do processo de agência da construção da colonização fora da Europa (e não apenas excluído, mas vítima dessa racionalidade), devemos tomar cuidado para não cair na velha acusação antissemita sobre o judeu apátrida, estrangeiro ou, em termos modernos, leal apenas a Israel. Uma anedota que ilustra bem esse tipo de preconceito aconteceu em 2019, em Las Vegas, durante o primeiro governo Trump. Em uma fala para judeus republicanos, Trump diz: “Eu estive ao lado do seu primeiro-ministro na Casa Branca para reconhecer a soberania israelense sobre as Colinas de Golã”. Trump referia-se ao primeiro-ministro de Israel. Ou seja, cidadãos estadunidenses escutam do presidente dos Estados Unidos que o primeiro-ministro deles é outro, de outro Estado, reproduzindo essa noção do judeu leal à outra pátria, estrangeiro ou de lealdade dupla e duvidosa. Soma-se a isso que grande parte da comunidade judaica estadunidense é crítica ao Estado de Israel, enquanto o apoio massivo do público americano vem da população evangélica protestante¹⁵, baseado em interpretações bíblicas escatológicas – é mais um elemento trágico nessa história que a posição sionista evangélica seja baseada em interpretações antissemitas. Meses depois, Trump faz uma nova fala antissemita, com o mesmo teor, ao dizer que os judeus que votassem no Partido Democrata estariam traindo Israel. A própria associação direta e imediata entre judaismo e Estado de Israel parte, na realidade, da ideia racista do “judeu sem pátria” ou com uma “verdadeira pátria – sempre outra”.
Alguns críticos sugerem que Freud reproduziu essa noção antissemita quando, ao falar dos povos europeus na tensa relação com os judeus, se refere a eles como “povos anfitriões” (2020, p. 147). Aqui, sugerimos a leitura de que, embora no primeiro plano interpretativo entendamos que, ao estabelecer essa distinção, Freud sugere que há anfitriões e visitantes (estrangeiros), num segundo momento podemos pensar essa distinção entre um povo dominante e uma minoria étnica como aquilo que chamamos anteriormente de “colonizados internos” e não estrangeiros. A relação é assimétrica e é para isso que Freud apontava.
Após a Segunda Guerra Mundial e o trauma do Holocausto, a Europa se viu diante da urgência de tratar de seu antissemitismo. Entretanto, a estratégia de tratamento adotada lidou, convenientemente, muito com o que era contingente e pouco com o que era estrutural. Por contingente, entende-se o retrato histórico específico: que uma minoria étnica tinha presença massiva na Europa ao mesmo tempo em que alguns, dentro dessa minoria, se destacaram enormemente nas artes e nas ciências, além de usufruírem de grande ascensão econômica ¹⁶. Nesse contexto específico, aparece um tipo de discurso de ódio que tem suas origens únicas e particulares. Essas particularidades foram tratadas, porém o que permaneceu de fora foi a raiz do problema: o racismo estrutural e a racionalidade que produziram tanto o Holocausto quanto as colonizações.
O discurso sobre o excepcionalismo (que olha apenas para o singular, ignorando o que há de geral) tanto do antissemitismo quanto do genocídio praticado pelos nazistas serve, em última análise, para borrar os limites desses fenômenos, sua gênese no pensamento europeu e o que eles compartilham com outras violências. É fundamental tratar o antissemitismo também pelo que ele é de forma mais genérica: a perseguição contra uma minoria étnica, aquilo que chamamos de racismo.
Embora todos os genocídios e formas de racismo tenham suas particularidades e existam dentro de contingências históricas únicas e específicas, abordá-los apropriadamente para o devido tratamento deve passar por inseri-los num quadro mais amplo. Dissociar a perseguição aos judeus ao longo dos séculos do racismo anti negro e da islamofobia dentro da Europa hoje, assim como da perseguição aos demais povos fora dela, seria uma tentativa de desviar o olhar do verdadeiro problema. Quando, em 2022, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrel, diz que “a Europa é um jardim e o resto do mundo é uma selva”, encontramos dentro da institucionalidade europeia contemporânea o mesmo discurso, sob a mesma racionalidade, que marcou os séculos anteriores e alguns dos piores capítulos da história da humanidade. É claro que a conclusão de Borrel foi que “a selva não pode invadir o jardim” e que “os jardineiros precisam ir à selva”. Um exemplo contemporâneo adicional são os “testes de civilidade” aplicados pelo governo dinamarquês, até 2024, em mães indígenas groenlandesas, para aprovar ou não que estas mantivessem a guarda de seus filhos após o parto, resultando na retirada sistemática de crianças indígenas de suas famílias.
Longe de ser uma anomalia isolada, o nazismo (que também matou eslavos, povos roma, pejorativamente chamados de ciganos, negros e outras minorias) levou para o centro da Europa ocidental a racionalidade que produziu as experiências coloniais que a África, a Ásia e as Américas já conheciam há séculos — assim como os judeus europeus.
Edward Said (2007), em seu Orientalismo, aborda o processo de produção da identidade europeia como cultura superior (na ciência, na arte, no comportamento, na estética etc.) a partir da inferiorização sistemática do Outro. Através de um aparato acadêmico e literário, a Europa teria produzido a imagem do não-europeu como exótico e inferior. A condição de exotismo também era característica da visão sobre os intelectuais judeus no século XIX, sendo eles tolerados em espaços aristocráticos apenas a partir dessa condição. O estabelecimento da cultura europeia como modelo ideal e a consequente desqualificação e inferiorização do Outro visavam justificar e viabilizar o domínio colonial. Segundo Said (2007, p. 34), “pode-se argumentar que o principal componente da cultura europeia é precisamente o que tornou hegemônica essa cultura, dentro e fora da Europa: a ideia de uma identidade europeia superior a todos os outros povos e culturas não europeus”.
Portanto, quando criticamos a tentativa de contraofensiva freudiana pela inversão da superioridade (ao inverter a acusação dizendo que o inferior era, na verdade, o outro), é preciso colocar em perspectiva histórica que esse paradigma dualista que supõe superiores e inferiores era, e permanece sendo, a base do pensamento europeu. Freud, como todos, era um homem de seu tempo.
Omer Bartov (2025), que é judeu israelense e um dos grandes especialistas em estudos de genocídio do mundo, tendo feito a base de sua formação em história do exército alemão e Holocausto, afirma, em entrevistas nos últimos anos, que o Genocídio em Gaza não tem precedentes na história recente e destaca dois grandes males desse acontecimento macabro: 1) que o genocídio seja praticado por judeus depois do que se passou no século XX; e 2) a posição dos países ocidentais (em especial a Alemanha), que quando viram a história se repetir, escolheram estar do mesmo lado novamente (jogando fora o direito internacional e as demais construções do pós-guerra)¹⁷.
Parte V – Final
Submetido a tantas dinâmicas de violência antissemita, Freud fez um grande esforço para que o fato de ser judeu não ficasse diretamente associado à sua produção teórica, pois uma vez que a psicanálise fosse considerada “psicologia judaica”, como Jung chegou a afirmar, sua rejeição e interdição estariam sacramentadas. Yerushalmi destaca a distância estratégica que Freud adota ao falar sobre judaísmo em comunicações públicas, tom muito diferente do encontrado em suas cartas privadas:
O tom é deliberadamente austero, wissenschaftlich [científico]. Ao contrário das suas cartas e das suas conversas com companheiros judeus, o livro refere-se aos judeus como “eles” em vez de “nós”. A esta altura, deveríamos reconhecer esse distanciamento como estratégico e não sermos enganados por ele. (Yerushalmi, 1991, p. 55)
As “defesas estratégicas” permaneceram necessárias durante toda a vida de Freud, uma vez que o refúgio no Reino Unido o salvou do extermínio nazista, mas não do antissemitismo, como relata o historiador:
Estabelecido no seu novo lar, ele começou a dar os toques finais no livro. Ele preocupava-se com uma reação adversa do público britânico, dada a sua reverência generalizada pela Bíblia. Ele preocupava-se com o antissemitismo. Para Jacob Meitlis ele confidenciou: “Basicamente, todos são antissemitas. Eles estão em toda a parte. Frequentemente, o antissemitismo é latente e oculto, mas ele está lá. Naturalmente, há também exceções. … Mas as grandes massas são antissemitas aqui como em toda a parte.” (Yerushalmi, 1991, p. 54 )
Essa amarga constatação de Freud, no entanto, não se restringia às massas britânicas, dizia respeito também a seu círculo psicanalítico em Londres. A figura de Ernest Jones (responsável por organizar o asilo da família Freud na Inglaterra e seu futuro biógrafo oficial) ilustra essa constatação. Como aponta Yerushalmi (1991), o “fanatismo antijudaico” de Jones era de conhecimento de colegas próximos e saiu do armário após o falecimento de Freud, culminando em um ensaio publicado em 1945, intitulado “A psicologia da questão judaica”, no qual ele defende a “desjudaização” através da assimilação total e que as diferenças físicas dos judeus seriam a causa das hostilidades contra eles, citando a circuncisão e o nariz, chegando a teorizar que o “nariz judeu” seria um gene dominante de deformidade. Segundo Yerushalmi (1991), Freud certamente conhecia o antissemitismo de Jones e foi alertado várias vezes sobre isso por outros psicanalistas judeus (como Ferenczi e Rank), mas Ernest Jones, enquanto britânico branco, era muito útil para a sobrevivência da psicanálise (que ainda lutava para não ser tratada como “ciência judaica” e, consequentemente, marginalizada) para que Freud se preocupasse com seus próprios sentimentos a respeito do assunto — repetindo a trágica história com Jung.
Ernest Jones, na condição de biógrafo oficial, impôs sua agenda à história freudiana¹⁸. Vendeu um Freud “higienizado” para os padrões ocidentais: burguês e alienado de sua judaicidade. O antissemitismo foi transformado em mero detalhe, e a condição absolutamente subversiva da fundação da psicanálise foi apagada. Não podemos dizer que Freud estaria em contradição com a versão de Jones, afinal, compartilhava essa agenda acreditando que seria o caminho possível para um futuro da psicanálise. Essa seria mais uma “máscara branca” imposta a Freud, desta vez para a posteridade. Hoje, porém, na América Latina, retomar essa história e ler Freud em nossa condição de não-europeus é recuperar a história de sua origem marginalizada e periférica.
Curiosamente, a associação direta entre psicanálise e judaísmo não aconteceu, ainda que não pelos motivos que Freud esperava. Proponho a hipótese de que a dissociação entre psicanálise e judaicidade ocorreu, não porque teria superado as barreiras do antissemitismo, mas por causa dele. A psicanálise era boa demais para ser segregada aos judeus. Então, por motivações antissemitas, a psicanálise foi dissociada de sua origem no coração de uma minoria étnica duramente perseguida e sua história foi parcialmente esquecida, borrada. Poderíamos dizer: “embranquecida”.
Notas
¹ No Brasil, também se convencionou nomear o árabe como branco. Seria possível desenvolver a ideia de que no Brasil só há duas etnias reconhecidas: branco e preto. Outras etnias são comumente nomeadas (por vezes de forma racista) através de uma estrangeiridade: japonês, alemão, boliviano, turco (curiosamente, é assim que muitos árabes são chamados, apesar de obviamente não serem túrquicos) etc.
² Destaco aqui que por “etnia” estamos falando de uma construção social sem contornos claros e objetivos e variando, justamente, conforme seu uso na história e no território. Essa construção é muitas vezes utilizada para fins racistas e de dominação, assim como também para fins de luta e resistência política de minorias. Optei por não trabalhar com a distinção clássica entre etnia (história/cultura) e raça (fenótipo), porque essa distinção não é clara; trata-se, novamente, de uma construção social fluida. Portanto, o uso exclusivo do termo “etnia” visa evitar ambiguidades.
³ Importante ressaltar que a categoria “branco” no Ocidente e na América Latina é uma macro-categoria étnica que engloba vários povos diferentes, além de ser um estatuto racista de “humanidade”: o único autorizado a gozar de direitos e privilégios. Um exemplo curioso é a flutuação racial dos italianos nos EUA. Estes, que foram perseguidos durante todo o século XX pela Ku Klux Klan, pela polícia e pelo sistema jurídico por serem lidos como “pessoas de cor”, passaram a ser menos perseguidos após o 11 de Setembro, quando o foco persecutório do país muda para os árabes. Uma brincadeira na internet é reveladora da verdade ao dizer que nesse caso os italianos foram “promovidos” a brancos. A ironia contida nessa brincadeira é que após o anti-herói ítalo-americano Luigi Mangione assassinar o CEO de uma empresa de planos de saúde no final de 2024, e o caso ganhar repercussão global, alguns memes na internet destacaram que os italianos foram novamente “rebaixados” a “pessoas de cor”.
⁴ Para estabelecer uma importante distinção entre antijudaísmo e antissemitismo: o primeiro é religioso enquanto o segundo é étnico. O antijudaísmo é milenar na Europa, sendo muito presente, inclusive, nos escritos de Martinho Lutero, o pai do protestantismo e da língua alemã moderna. O antissemitismo é declaradamente étnico e nasce, com esse nome, a partir das teorias raciais do século XIX. Apesar dessa distinção, o antijudaísmo nunca foi apenas religioso. O próprio Lutero, em seus escritos, acaba passando do ódio religioso ao ódio étnico contra judeus. O antijudaísmo pregava a conversão ao cristianismo como fim da perseguição, algo que não se mostrou verdadeiro, como a história dos judeus sefarditas como “cristãos novos” em Portugal e na Espanha revelou.
⁵ O Império Austro-Hungáro, uma monarquia constitucional, é formado em 1867, quando Freud tinha 11 anos de idade. Antes, tratava-se do Império Austríaco dos Habsburgos, uma monarquia absolutista. Em 1918 o Império cai, com a derrota na Primeira Guerra Mundial, e é instituída a República Austríaca.
⁶ Ernest Jones, biógrafo oficial, fez esforço para pintar a história de Freud com verniz burguês, o que influenciou fortemente a impressão geral sobre Freud até os dias de hoje. Até a biografia escrita por Peter Gay sofre influência dessa versão de Jones, uma vez que os documentos que mostram o contrário só foram descobertos anos depois, com o esforço de pesquisadores como Christfried Tögel, que resgatou arquivos da cidade de Leipzig, revelando a tentativa frustrada da família Freud de se estabelecer lá e uma série de documentos vienenses revelando a dura situação econômica da família. Biografias mais recentes, como a escrita pelo próprio Tögel ou a de Elizabeth Roudinesco já trazem esses acréscimos importantes sobre a história de Freud.
A penúria econômica de Freud só acabaria ao estabelecer sua clínica particular, alguns anos após sua formatura universitária. Para estudar medicina contou com bolsas de estudo e ajuda financeira de parentes da mãe e de amigos ricos (como o médico judeu Josef Breuer). A verdadeira ascensão econômica de Freud viria ainda alguns anos mais tarde, aos seus 35 anos, quando se muda da periferia para seu famoso endereço na Berggasse, 19.
⁷ Na letra fria da lei, a categoria jurídica de apartheid não se aplica, pois, se havia dois sistemas de leis valendo para duas “categorias” diferentes de humanos, essa diferenciação se vendia como religiosa e não étnica. Supostamente os judeus poderiam se converter ao cristianismo e passar a gozar de direitos. Porém, como a história mostrou, isso não era verdade: judeus convertidos cristãos continuaram sendo discriminados e perseguidos como judeus étnicos, como demonstrado no conhecido caso de Gustav Mahler — que se converteu para ter o direito de se tornar diretor da Ópera de Viena. Ou seja, levando em consideração o “espírito da lei” de segregação e não a minúcia jurídica, sim, pode-se falar em apartheid. Não deixaremos de pontuar que pode haver algo de anacrônico nessa nomeação, uma vez que apartheid é uma categoria jurídica criada no século XX, mas, em 2026, esse não deixa de ser um conceito de grande serventia para ilustração do contexto judeu anterior a 1867. Também há um argumento defendido por alguns historiadores de que o termo deveria ser restrito ao acontecimento específico da África do Sul, mas vamos então lembrar que é a própria África do Sul, como política de Estado, que faz questão de denunciar o regime israelense como sendo um apartheid (além de denunciar que o apartheid imposto aos sul-africanos nunca foi tão rigoro quanto o imposto aos palestinos). Sobre a possibilidade de conversão religiosa, Mezan (1985) a descreve como falaciosa, uma vez que o antissemitismo não deixaria de se fazer presente. Mezan ainda apresenta um dado de que apenas 0,2% dos judeus, por ano, no máximo, se converteu ao cristianismo. Um número tão baixo para uma promessa tão grande (direitos de cidadão) faz crer que se entendia que a conversão não era realmente o mágico “bilhete de entrada para a cultura europeia”, como afirmou Heine — isso para os judeus seculares; é claro que para os religiosos há mais em jogo.
⁸ Freud relata que o momento da Emancipação foi de grande alegria em sua família. Em divergência com nossos achados, Renato Mezan (1985) afirma que a Emancipação dos judeus só aconteceu em 1869 e que, entre 1848 e essa data, nenhum afrouxamento legal teria acontecido, tornando o cenário ainda mais grave. Não encontrei fontes que sustentem a afirmação de Mezan, pelo contrário, encontrei as informações contidas no corpo do texto. Em 1869 aconteceu a emancipação dos judeus na Alemanha do Norte e, em 1871, na Alemanha.
⁹ A vida universitária também ofereceu grandes dificuldades a Freud, ele afirma ter sentido uma profunda decepção nos momentos iniciais, devido à forte perseguição antissemita (Mezan, 1895). Também relata que seus colegas esperavam que ele reconhecesse sua “inferioridade racial”. As ofensas aconteciam com certa frequência e Freud chegou a ir às vias de fato quando foi chamado de “judeu sujo” (Roudinesco, 2016).
¹⁰ Mais do que isso, defendo que quase toda a “psicopatologia colonial” descrita por Fanon, no contexto da colonialidade francesa pode ser transportada para a leitura sobre os judeus na Europa. Chamo a atenção para a conturbada relação com a língua colonial, tema quase onipresente nas cartas trocadas entre intelectuais judeus e descrita à perfeição por Fanon em seu Pele Negra, Máscaras Brancas.
¹¹ O conceito de mimetismo colonial descrito Homi Bhabha é quase o mesmo que o de “superidentificação” de Slavoj Zizek, a ideia de que uma super assimilação teria, na verdade, efeito crítico. Não à toa ambos desenvolveram esses conceitos tendo a obra de Lacan como referência.
¹² No contexto político contemporâneo, de Genocídio palestino em Gaza e apartheid e limpeza étnica na Cisjordânia, vale destacar a posição freudiana frente ao sionismo. Como toda relação de Freud envolvendo o judaísmo, essa relação também é ambivalente e conflituosa. Embora Freud tenha feito duras críticas ao sionismo e ao estabelecimento de um Estado judeu em terra ocupada, além de nunca ter cogitado fazer a Aliá (diferentemente da maioria dos intelectuais judeus de língua alemã de sua época), Freud foi membro da sociedade B’nai B’irth durante toda a vida, onde fez conferências anuais durante pelo menos vinte anos, além de assumir uma posição de conselheiro regente na Universidade Hebraica de Jerusalém.
¹³ Na condição de colonizado interno, é passível de questionamento até que se diga que Freud era alemão (ou austríaco ou tcheco). Em 1932, em carta enviada ao romancista judeu vienense Stefan Zweig, Freud diz que há judeus que se consideram alemães e outros que não. Ele próprio, Freud, afirma não se considerar alemão, enquanto Zweig se via assim. Ao leitor atento pode parecer estranho que um morador de Viena, atualmente a capital da Áustria, se considere alemão, mas lembremos que a ideia de uma nação austríaca é uma construção do pós-Segunda Guerra e que a Áustria construiu toda uma identidade nacional tentando se distanciar dos crimes alemães. Até então, a população da República Austríaca era considerada alemã – especialmente, claro, a maioria branca.
¹⁴ Sobre a aposta na branquitude de Jung como possibilidade de sobrevivência da psicanálise, apesar de seu antissemitismo, vamos às palavras do professor de história judaica:
Em nome da “causa”, o mesmo Freud que havia sido tão militante em relação ao antissemitismo e que havia desprezado o que considerava ser a fraqueza de seu pai diante dele, agora reprimia deliberadamente seus receios e se desdobrava para cultivar Jung e manter sua lealdade, mesmo que, com isso, ocasionalmente causasse dor a alguns de seus colegas judeus mais próximos, Karl Abraham e Sándor Ferenczi entre eles. (Yerushalmi, 1991, p. 42)
¹⁵ Em pesquisa realizada em 2026, apenas 37% dos judeus estadunidenses se dizem sionistas, enquanto 82% dos protestantes se declararam dessa maneira. Destacamos que esses números têm caído, principalmente entre os mais jovens. Ainda, em pesquisa realizada em 2021, 25% dos judeus estadunidenses disseram considerar que Israel é um Regime de Apartheid, seguindo as conclusões da Anistia Internacional, da Comissão de Direitos Humanos da ONU e do partido sul-africano de Nelson Mandela, o Congresso Nacional Africano.
¹⁶ Característica típica dos povos diaspóricos, como judeus e armênios. Evita-se trabalhar com a terra para não criar dependência de uma região que pode sempre ser passageira. Sendo assim, é comum que essas populações procurem trabalho com comércio, artes e intelecto (aquilo que não se perde em uma diáspora). A perseguição aos armênios no Império Otomano tem grandes semelhanças com o antissemitismo na Europa.
¹⁷ A Alemanha responde na Corte Internacional de Justiça (CIJ) como cúmplice do processo de Genocídio praticado por Israel em Gaza. A Alemanha é acusada de fornecer apoio militar, político e financeiro decisivos. O apoio alemão e o processo na CIJ foram iniciados ainda no governo de Olaf Scholz, da esquerda alemã, que adotou uma postura radicalizada na política externa, muitas vezes indistinguível da posição da extrema-direita.
¹⁸ Em Freud: uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay, encontramos o mesmo esforço ativo de diminuição do tamanho e da relevância tanto da judaicidade quanto do antissemitismo na vida Freud. Encontramos também a insistência na qualificação de Freud como burguês. Grosso modo, Peter Gay trabalha com um conceito de burguesia que dissocia esta da condição econômica, levando em consideração mais a formação cultural, uma espécie de “burguesia cultural”. Portanto, ao ler sua interpretação de Freud devemos estar avisados de que ao retratá-lo como “burguês”, Gay referencia à sua formação humana e intelectual, não as condições materiais, como normalmente seríamos levados a entender. Com a ascensão financeira sendo bastante tardia e oscilante na vida de Freud, vê-lo como burguês no sentido comum do termo seria apenas um equívoco factual.
Sobre o esforço de “apagamento” da judaicidade de Freud na obra de Peter Gay, Yerushalmi destaca com certa dose de ironia: “Com efeito, Gay lançou um cordão sanitário, se não em torno de Freud, então ao redor da psicanálise, protegendo-a de qualquer mancha de condicionamento histórico ou cultural. Encontrar tal abordagem essencialmente a-histórica em um eminente historiador social e intelectual é curioso.” (Yerushalmi, 1991, p. 116)
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