Formalizando um novo dispositivo institucional: uma proposta pós-lacaniana

Por Pedro Vannucchi Trindade

As questões institucionais acompanharam a trajetória pessoal e teórica de Lacan. Presença, fundação, expulsão e dissolução marcaram seu percurso nas Instituições de Psicanálise. Junto com isso, um bom modelo de organização (Escola) e o cartel como paradigma da formação do psicanalista foram algumas de suas produções teóricas nesse campo – sempre às voltas com os problemas do poder e os efeitos de grupo. Algumas dessas produções, como o conceito de “mais-um”, talvez sejam subaproveitadas. Se recorrentemente a psicanálise é superestimada — pelos próprios psicanalistas — e extrapola seus limites (sejam eles quais forem), no campo da institucionalidade me parece o contrário, a psicanálise é subestimada e acaba por oferecer poucas de suas possíveis contribuições. Desde sua invenção até hoje, o cartel e a função “mais-um” são usados quase que exclusivamente por psicanalistas lacanianos. Minha proposta é tentar ampliar o conceito e aumentar suas possibilidades de uso. Trata-se da tentativa de formalização de uma função que possa ser exercida por diferentes pessoas em diferentes espaços, sem a exclusividade do cartel e a necessidade de um psicanalista nessa posição. A coordenação do Laboratório de Psicanálise, Clínica e Institucionalidade funciona como experimento e verificação sobre a possibilidade de uso da proposta em outros espaços. Assim como os coletivos Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia (CEII) e Coletivo Escuta, cada um à sua maneira, também fizeram tal experimento no passado. Se funcionar, pode ser exportada como modelo. Importante ressaltar que não se trata da proposta de Lacan “aplicada” em outro lugar, trata-se, antes, de uma transformação do conceito, para que caiba em outro contexto, com outro uso – é o que chamei de proposta pós-lacaniana.

Como lidar com os efeitos de grupo? Esta é uma tentativa de contribuição psicanalítica.

O mais-um, essa posição que coloca um participante do grupo numa função especial de, ao mesmo tempo, organizar, convidar ao trabalho e “sair de cena” para convocar ao desejo. Conceito e função que me parecem próximas ao de “chefe sem autoridade”, descrito por Pierre Clastres. Esse modelo de organização social, próprio aos indígenas brasileiros, em que uma pessoa é colocada na posição de chefe, de dirigente, mas sem poder efetivo, sem autoridade, só para esvaziar essa posição. Se há alguém ocupando o espaço da autoridade e atento aos perigos que isso comporta, o grupo, a instituição ou a sociedade preservam sua horizontalidade. A proposta do mais-um no cartel é que ele possa cumprir uma função parecida: esvazia o lugar do mestre e, assim, abre o debate, convoca ao desejo e à uma espécie de auto-autorização. Essa ideia poderia ter usos políticos muito interessantes. É comum e bastante esperado que, por exemplo, em uma reunião de militantes políticos, alguém que é visto como liderança ou por quem os participantes nutrem admiração (poderíamos dizer: transferência), tenda a exercer autoridade decisiva. Mesmo que tal figura não esteja na condição de chefe, com poderes concretos, a tendência geral é que a maioria dos presentes tenha algum receio de discordar, ou seja, os presentes são levados, ainda que inconscientemente, a concordar com aquele que é admirado (ou temido). A função de mais-um está aí para lidar com esse problema, alguém está colocado na posição de autoridade, mas está atento à função por cumprir: esvaziar essa posição, abrir espaço para as singularidades.

Aqui se coloca o problema central da consistência e da coesão. Toda instituição é atravessada por uma tensão dialética: por um lado, a tendência à formação de uma consistência de grupo (coesa, imaginária, identificatória etc.) que dá pouco espaço para a singularidade e o desejo – você deve estar dentro da coesão do grupo, não importa o que nem como; por outro lado, a importância de alguma consistência institucional (logística, executiva etc.) para que tal instituição de fato se realize. O dispositivo a ser proposto como modelo de coordenação deve, então, operar precisamente nessa mediação: fazer furo na consistência do grupo e, ao mesmo tempo, sustentar alguma consistência institucional.

Se, nas instituições, os indivíduos estivessem atentos às consequências da transferência, da identificação e do poder, podemos imaginar que estas seriam mais interessantes. Em minha experiência pessoal, encontro com frequência nos coletivos e partidos políticos, assim como nos movimentos sociais, um funcionamento baseado em “reserva de poder”. Aquele que, de alguma maneira, está colocado em posição de poder, tende a tentar conservá-la, mantendo assim sua relevância e deixando pouco espaço para o outro. Seja por nunca abrir espaço ou por se candidatar consecutivamente para a mesma vaga de coordenação.

Portanto, para lidar com a questão do poder, da autoridade, dos efeitos de grupo e da consistência institucional, além do velho dilema organizacional entre modelos verticais (execução e eficiência) e horizontais (democracia e pluralidade), propomos uma solução baseada tanto na ideia ameríndia de “chefe sem autoridade” quanto no “mais-um”, de Jacques Lacan. Trata-se de uma coordenação que existe para:

1. Absorver as tarefas organizacionais de ordem prática. A coordenação assume a responsabilidade pela logística, agendamentos, comunicação e outras demandas executivas. Ela garante o “funcionamento vertical” necessário para que o trabalho do coletivo possa acontecer.

2. Preservar, ao mesmo tempo em que esvazia o lugar de poder, sendo esta posição “sem autoridade”, sem poder efetivo na organização do coletivo. Uma coordenação presente mas sem autoridade difere de uma coordenação ausente ou vaga – o que convidaria alguém a assumi-la.

3. Se faz necessário que quem ocupa este lugar esteja advertido para a problemática do poder, da consistência e dos fenômenos de grupo, fazendo função de furo. Esta função é de especial dificuldade por exigir certo nível de abnegação.

Se, para um grupo de quatro a seis pessoas (cartel), uma única pessoa exercendo essa função é suficiente e funciona bem, para grupos maiores provavelmente não. Proponho, então, a tentativa de um modelo de coordenação em que todos os seus integrantes estejam nessa função. Uma espécie de mais-cinco. Em outras palavras, um grupo de coordenação (com quantidade de pessoas a ser definida dependendo das circunstâncias) em que seus participantes, durante o mandato (outra maneira de garantir a circulação do poder), assumem a responsabilidade organizativa do coletivo e convocam ao trabalho ao mesmo tempo em que estão atentos aos efeitos de grupo – para esvaziá-lo –, e podem, quando for o caso, “sair de cena” para dar espaço à circulação de desejos na instituição. Pode-se cogitar uma proposta alternativa de coordenação mista, que também seria passível de experimentação, em que alguns estão só na função executiva e outros só na função de mais-um.

O que significa exatamente exercer essa função? Não há uma cartilha de procedimentos.  É importante enfatizar que essa função não se exerce apenas intuitivamente, é um trabalho e envolve certa abnegação – ao qual os psicanalistas estão acostumados, mas aqui reside o desafio de entender e estabelecer quais as condições de possibilidade dessa proposta. Assim como para estar na função de analista não é possível simplesmente agir com naturalidade, para ocupar a função de mais-um também não. Há um grau de renúncia da própria subjetividade em jogo (o gozo do poder, a coesão em grupo etc.), o que coloca especiais dificuldades para o exercício dessa função. O que se propõe aqui, portanto, não é um modelo fechado, mas um convite à experimentação e um debate que permanece em aberto.

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