Breve comentário sobre a noção de “política da psicanálise”

Por Pedro Vannucchi Trindade

Política é uma palavra bastante polissêmica. A noção geral de política, enquanto disputa da polis, ganhou enorme destaque na última década e há uma espécie de politização massificada (há de se problematizar essa politização, nesses moldes). A psicanálise não está fora desse movimento de massa e, no ensino de Lacan, o termo “política” ganhou destaque. Como se sabe – e como se repete à exaustão — Lacan propôs, em seu “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, pensar a intervenção clínica em três níveis: a tática, a estratégia e a política.

Trata-se de conceitos militares. A origem dessas palavras remonta à Grécia Antiga: estratégia significa “arte do general”, numa clara referência à guerra, enquanto tática vem do grego antigo “taktike” e faz referência às manobras de tropas e à habilidade do comandante nesse tipo de operação militar. No uso corriqueiro, ambas as expressões se popularizaram, com destaque para o uso no vocabulário esportivo.

No xadrez, a tática se refere ao cálculo de variantes no caso a caso de cada lance, de cada situação única. A estratégia, por sua vez, foca na construção de vantagens posicionais de longo prazo. Tudo submetido ao que poderíamos chamar de política de xeque-mate.

A tática, em Lacan, se refere à intervenção do analista. É nesta em que ele é mais livre. Uma vez que esteja orientado pela política e pela estratégia, na intervenção tática cabe tudo. Da fala ao ato, o analista é livre para intervir conforme seu estilo. Sobre a estratégia, Lacan diz que esta diz respeito ao manejo da transferência. Tanto de forma mais macro, pela orientação estratégica a partir da hipótese diagnóstica (na transferência), quanto mais micro para o manejo específico daquela transferência única e singular.

Entremos, então, no terceiro termo: a política. É aqui que a polissemia da palavra produz mal-entendido. Quando Jacques Lacan fala da política da falta-a-ser, ou da política do desejo, o sentido de política não é aquele da administração ou da disputa da polis (interpretação clássica) ou da luta de classes (interpretação marxista), mas da política enquanto diretriz. Aqui, num raro momento em que a língua inglesa pode expressar melhor a ideia do que a língua portuguesa, resgatamos a diferença do inglês para “politics”, a política propriamente dita, aquela que poderíamos chamar de Política com “pe” maiúsculo, e para “policy”, a política que grafamos com “pe” minúsculo, com sentido de diretriz. É nesse sentido que a política aparece em Lacan: como norte, como “policy”, que orienta as ações. Mais parecido com o que seria “a política de uma companhia, de uma empresa”.

Paradoxalmente, o mal-entendido que costuma associar e forçar uma interpretação lacaniana no sentido da Política, me parece, mais do que qualquer coisa, sintoma da hiperpolitização despolitizada de nossa época. Explico: o militante que tem ação com efeitos políticos concretos não corre o risco de chegar em casa no fim do dia e achar que a escolha pelo filme que vai assistir ou pela música que vai escutar terá consequências políticas. A ação política dá um parâmetro mais claro sobre que tipo de ação tem efeitos subjetivos e que tipo de ação tem efeitos políticos. A hiperpolitização, sob o paradigma do “pessoal é político”, é o caso clássico do excesso que esconde a falta; ou seja, sintoma do seu contrário: a despolitização.

Uma alternativa mais interessante seria que, em vez de embarcar na idealização da psicanálise como uma teoria política (ou pior: metapolítica, que seria capaz de julgar e avaliar a qualidade dos conceitos políticos), os psicanalistas politizassem a si mesmos, como cidadãos. Ao idealizar essa psicanálise política cria-se a falsa ilusão de que apenas manter-se na psicanálise (clinicando, estudando) já dá conta de uma atuação política. Para o dispositivo analítico propriamente não há Política senão sua política de direção do tratamento.

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