Por Pedro Vannucchi Trindade
Os capítulos 30 a 35 da Parte II de Anna Kariênina (1878), de Liev Tolstói, apresentam o arco de cura da princesa¹ Iekatierina² Aleksándrovna Cherbátskaia, geralmente chamada pelo apelido Kitty. Nesse trajeto é possível ler, a posteriori, um modelo reduzido³ de fim de análise⁴ psicanalítica.
Nos primeiros capítulos da obra, o dilema de Kitty nos é introduzido. Jovem e muito bonita, a princesa é cortejada pela nobreza moscovita e se vê entre duas perspectivas de casamento. De um lado, Konstantin Liévin, homem do campo (representante das tradições russas) com pretensões sérias e profundamente apaixonado; por ele, Kitty nutre respeito e amizade, mas não amor apaixonado. De outro, o conde Aleksiei Vrónski, petersburguense (ocidentalizado) carismático e elegante. Durante uma temporada em Moscou ele conquista o amor de Kitty, sem, porém, cogitar transformar essa relação em casamento.
Liévin apresenta sua proposta de casamento e é recusado por Kitty, que aposta suas fichas no ingênuo apaixonamento, incentivado por sua mãe, por Vrónski. Ao se deitar para dormir nessa mesma noite, a princesa se angustia com a recusa e, sem compreender o motivo, pede a Deus que a perdoe.
A história segue com o sumiço de Vrónski. Sumiço esse que hoje se poderia nomear como “ghosting”. Isso, após ignorar Kitty em um baile e passar a maior parte da noite com Anna Kariênina, por quem ele de fato se apaixonaria.
Kitty entra em profundo sofrimento incapacitante pelo que ela considera uma enorme humilhação (o sumiço do suposto pretendente) somado ao peso da recusa (tema no qual ela se recusa a tocar nesse momento). Condição em que ela se manterá por meses, até uma viagem para águas termais na Alemanha, seguindo prescrição médica.
Na Alemanha ela conhece Várienka, uma russa que vive no exterior há anos com sua mãe de criação, Madame Stahl, figura da alta nobreza russa. Ao olhar de Kitty, ambas são perfeitas e idealizadas. Ao descobrir que Várienka passou de maneira aparentemente indolor por situação semelhante à sua, a impossibilidade de se casar com o homem que amava, Kitty entra em uma tentativa de “cura pela identificação”. Se tornar como Várienka para se ver livre do sofrimento como ela. Ou seja, ao se tornar como ela, mimetizando seu jeito e forma de viver, Kitty acreditava que se veria livre de seus dramas e poderia viver tranquilamente, como Várienka supostamente fazia.
Ambas, Várienka e Madame Stahl, são retratadas como representantes do processo de ocidentalização a qual a elite russa estava submetida, evidenciado pelo “madame” ao qual Stahl é referida, além desta ter abandonado a religião ortodoxa em favor do protestantismo alemão. Kitty passa a mimetizar ambas adotando, inclusive, a religiosidade de Stahl. Comentando a perspectiva da princesa Cherbátskaia, mãe de Kitty, o narrador escreve:
A princípio, a princesa notou apenas que Kitty estava sob forte influência do seu engouement, como o chamava, pela senhora Stahl e, sobretudo, por Várienka. Via que Kitty não só imitava Várienka em suas ações como, involuntariamente, a imitava em sua maneira de andar, falar e piscar os olhos. Mais tarde, porém, a princesa notou que a filha, independentemente desse fascínio, passava por uma séria transformação espiritual. (Tolstói, 2013, p. 301)
Kitty passa a agir e se comportar como as duas, identificando-se, acreditando que ali estava a saída para sua dor.
Os pais de Kitty, na obra, são representantes⁵ das duas correntes políticas que polarizavam a Rússia do século XIX (e permanecem polarizando): o ocidentalismo e o eslavofilismo. A mãe de Kitty é apresentada como ocidentalista e o pai como crítico da Europa e sua cultura, desejoso de voltar à Rússia. A passagem a seguir evidencia esse duplo entre os personagens:
A princesa achava tudo lindo e, apesar da sua posição estável na sociedade russa, tentava, no exterior, portar-se como uma dama europeia, o que não era – pois era uma fidalga russa – e por isso fingia, o que a deixava um pouco embaraçada. Já o príncipe, ao contrário, achava tudo ruim, no exterior, incomodava-se com a vida europeia, mantinha seus costumes russos e se empenhava deliberadamente em mostrar-se menos europeu do que de fato era. (Tolstói, 2013, p. 304)
Ao retornar de viagem em outra parte da Alemanha e encontrar sua filha Kitty, o príncipe Cherbátski opera uma intervenção de efeitos análiticos. De forma não intencional, sua fala funciona como uma intervenção “na transferência” que produz um furo na fantasia identificatória de Kitty. Ele zomba educadamente de madame Stahl, nomeia sua posição religiosa pietista (chocando Kitty ao revelar que para aquela atitude religiosa havia um nome pré-estabelecido) e denuncia o caráter performático tanto de seu adoecimento quanto de sua caridade. Essa intervenção dissolve a alienação imaginária da filha:
Kitty sentia que a imagem divina da senhora Stahl, que ela trazia na alma fazia um mês inteiro, se havia perdido irremediavelmente, como desaparece uma figura humana formada por um vestido largado ao acaso, quando se percebe que nada mais é do que uma roupa vazia. Restara apenas uma mulher de pernas curtas, que não se punha de pé porque tinha o corpo mal constituído e que atormentava a humilde Várienka por não a agasalhar direito com a manta. E já nenhum esforço de imaginação conseguiria restabelecer a madame Stahl que existia antes. (Tolstói, 2013, p. 310)
No primeiro momento, Kitty retorna à posição de desânimo pela dissolução da nova fantasia a que tinha se agarrado. Contudo, em sequência, em um momento de explosão de raiva com Várienka, acaba por se dar conta de que estava tentando uma saída enganosa.
Mas o que posso eu fazer se sou má? […] Portanto, que eu seja como sou, mas não vou fingir. Que eles vivam como bem entenderem e eu viva como quiser. Não posso ser diferente… (Tolstói, 2013, p. 315)
Ao tentar se defender da angústia pelas escolhas do passado, buscou uma alternativa que funcionava para Várienka, não para ela.
[…] para Kitty, a partir da vinda do pai, todo aquele mundo em que ela vivia se modificou. Kitty não renegou tudo o que aprendera, mas compreendeu que enganava a si mesma, ao pensar que poderia ser o que quisesse. Ela pareceu despertar; deu-se conta de toda a dificuldade que havia em manter-se, sem falsidade e sem jactância, nas alturas a que desejava elevar-se; além disso, deu-se conta de todo o peso daquele mundo de sofrimento, de pessoas doentes e moribundas, em que ela vivia; os esforços que empenhava contra si mesma para gostar disso lhe pareceram torturantes e sentiu uma vontade de respirar ar puro, o mais rápido possível, na Rússia. (Tolstói, 2013, p. 316)
O “despertar” de Kitty esvazia o engodo do Outro consistente que supostamente lhe ofereceria uma saída. Na dinâmica transferencial da personagem, tanto Várienka quanto Madame Stahl ocupavam o lugar de sujeito-suposto-saber, percebidas como detentoras das respostas sobre a vida, sobre o sofrimento e suas nuances. A descoberta da trivialidade que sustentava a fachada de Madame Stahl destitui esse lugar e leva Iekatierina a se confrontar com a falta no Outro.
A contragosto viu essa fantasia cair ao encontrar apenas uma “roupa vazia”. Essa queda do Grande Outro (que circulou do amor romântico à nobreza e à Europa) foi tão dura quanto libertadora. A partir disso ela pôde deixar de tentar “ser quem gostaria de ser”, ou seja, corresponder a uma imagem idealizada de si mesma, para falar em nome próprio e responsabilizar-se por isso.
Que com isso Kitty tenha abandonado o ideal europeu para voltar ao “ar puro” da Rússia, extraímos duas leituras. A primeira é manifestação da crítica de Liev Tolstói ao pensamento ocidentalista russo; a segunda é o típico movimento de fim de análise em que se retorna ao mesmo, à origem, mas desde outra posição subjetiva. Kitty está “curada” e pode deixar de tentar ser outra, deixar de tentar ser europeia, para poder habitar, à sua maneira, sua condição de russa.
Notas
¹ Na Rússia imperial o título de príncipe e princesa tem um significado diferente do significado tradicional europeu. Refere-se a uma titulação de alta nobreza não vinculada à família imperial (Románov) ou à sucessão do trono.
² Iekatierina (ou Ekatierina) é a versão transliterada do russo adotada pela edição utilizada (Cosac Naify), cuja tradução para o português é Catarina.
³ Não se trata de esperar demonstrar um fim de análise de fato (uma vez que sequer há análise) ou de encontrar uma correspondência exata. O caso literário apresentado funciona como metáfora do processo analítico, lido dessa forma a posteriori. Também interessa pontuar que efeitos semelhantes aos análiticos podem ocorrer fora do espaço artificial do divã.
⁴ Não há teoria unificada de fim de análise nem na psicanálise no geral nem na psicanálise francesa, utilizada como base conceitual neste ensaio. A escola francesa escolhe a evitação absoluta do sectarismo na teoria e na clínica. A tudo se convencionou chamar de “lacaniano”, assim evitando o termo “pós-lacaniano”, partam as formulações do próprio Jacques Lacan ou não. Um exemplo é o conceito milleriano de travessia da fantasia, admitido como parte da teoria “lacaniana” pela comunidade. Em posição oposta, a escola inglesa de psicanálise é fortemente sectária com várias correntes e dezenas de subcorrentes.
⁵ Optei por apresentar uma versão simplificada e esquemática de certos aspectos da obra, como as dualidades (nacionalista x ocidentalista) entre Moscou x São Petersburgo, Liévin x Vrónski, pai x mãe, a título de introduzir o contexto geral para caminharmos para o ponto focal do ensaio: o comentário psicanalítico. A obra é de fato constituída de uma série de duplos, sendo esse o duplo político mais evidente.
Referências
TOSLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
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